Tédio

Maio 29, 2009

As batidas do ponteiro do relógio de mesa compassavam as batidas do meu coração e eu só olhava para seus olhos sérios e presos a alguma coisa em meu rosto, impassível.
Estávamos cansados, aquela havia sido uma tarde horrível para nós dois. Queria saber por que estamos aqui. Eu desejei estar na sua cama, fazendo algo mais interessante, mas o momento não parecia ser o melhor. Sei lá, você parece tão nervoso…
Inspirei fundo e pensei em falar qualquer meia dúzia de palavras quando terminasse de expirar, até cheguei a separar um tanto os meus lábios, mas você olhou para mim e agora estamos assim. Imóveis e inertes.
É melhor eu pegar um cigarro. Você vai ficar quieto mesmo, eu não sei o que dizer, cacete.

— Eu… — Eu quase esqueci como era a sua voz! Que merda, acho que sorri quando você começou a falar. Mas agora termine… Que silêncio é esse? — Eu acho que estou gostando de outra pessoa.
— E eu com isso? — Perguntei um pouco ácida, procurando pelo meu isqueiro na bolsa. Senti uma mão segurar meu braço e tornei meu olhar para aquele gesto. Respirei fundo e com a mão do cigarro, peguei aquela que me segurava com delicadeza e sorri. — O que eu posso fazer, Ricardo? Você gosta de outra pessoa, vai para a cama comigo quando estamos entediados… Isso não muda a nossa amizade. Tem um isqueiro aí? Acho que esqueci o meu no escritório…

Você sorriu, dando-me o isqueiro. Fingiu não saber dessa minha falsidade e largou-me, recostando-se no sofá. Mais um silêncio entre nós dois. Deviam ser umas sete horas da noite, podíamos ouvir os pensamentos nossos e dos transeuntes lá embaixo.
Olhamo-nos mais uma vez, traguei e virei meu rosto para a televisão desligada. Observava-te pelo reflexo e tinha algo pérfido em seu olhar tão direto a mim. Não agüentei a provocação e mordi meu lábio inferior, com um sorriso de canto e um olhar de soslaio.

— Que foi? — Perguntei soltando a fumaça vil que me mataria em alguns anos.
— Fiz algo? — O cinismo dava-te um charme enorme, fora daqui, ninguém podia sequer cogitar que existia essa porção canalha em você.

Balancei a cabeça negativamente e apaguei o cigarro. Novo silêncio. Aquilo incomodava demais, eu precisava saber quem era a vaca que tirava de mim meu lanche favorito. Compartilhar não é algo que eu saiba fazer bem. Você sabe bem disso e alguma coisa me dizia que estava só brincando comigo.
Apoiei meus cotovelos no joelho e fiquei assim por sei lá quanto tempo, o suficiente para me convencer que teria que achar outro lanchinho. Respirei fundo e senti, em seguida, um corpo sobre as minhas costas, a barba por fazer na minha nuca e uma respiração fria acariciando meus cabelos. Os lábios encostavam-se no meu ombro e às vezes, alguns dentes encontravam meu lóbulo. Um riso malicioso baixo ao pé do meu ouvido anunciava a mentira.
Sorri, somente.

— Estamos com tédio, não é?